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01/08/2011

VALIDAÇÃO DURANTE A INTERVENÇÃO ERGONÔMICA: ANÁLISE, PROJETO E IMPLANTAÇÃO

VALIDAÇÃO DURANTE A INTERVENÇÃO ERGONÔMICA: ANÁLISE, PROJETO E IMPLANTAÇÃO

Michel Silvério, Daniela da Silva Rodrigues, Daniel Braatz M.Sc., João Alberto Camarotto Dr., Nilton Luiz Menegon Dr.
Grupo Ergo&Ação/ DEP / Universidade Federal de São Carlos
Rod. Washington Luiz, Km 235
13565-905 - São Carlos - SP
Email: michel@dep.ufscar.br

Palavras-Chave: validação, projeto de situações produtivas, implantação

Ao realizar intervenções ergonômicas é necessário que elas sejam compreendidas com a devida abrangência das fases de análise, projeto e implantação. Desta forma, também a validação possui um papel fundamental em tais etapas e não se trata apenas de um processo de conhecimento e restituição da atividade. Nesse sentido, o foco deste trabalho é discutir os diferentes momentos de validação presentes em uma intervenção ergonômica, Assim, este artigo não tem o propósito de restringir a discussão de validação apenas ao momento da análise, mas sim incorporar as fases de projeto e implantação, apresentando diferentes técnicas possíveis de serem aplicadas nestas etapas.

Key-words: validation, workspace design, implantation
When performing ergonomic interventions it is necessary that it is understood in sufficient coverage of the phases of analysis, design and implantation. Thus, the validation has a key role in these steps and it is not just a process of restitution of knowledge. In this sense, the focus of this paper is to discuss the different moments of validation present in an ergonomic intervention, therefore, this article is not intended to restrict the discussion only to the step of validation of the analysis, but rather incorporate the design and deployment phases, with different techniques that may be applied in these steps.

1. INTRODUÇÃO
A atuação da ergonomia nas organizações industriais tem sido realizada no âmbito da intervenção nas situações de trabalho consideradas nocivas aos trabalhadores (saúde, segurança, conforto e satisfação) e ao desempenho das organizações (eficiência, produtividade e confiabilidade) (FALZON, 2007).
As intervenções percorrem um processo de ação e apresentam-se em diferentes etapas, desde as análises, durante os projetos e após a implantação. A cada etapa destaca-se a importância da prática da validação, não como um processo linear, mas sim dinâmico e com a finalidade de fazer intermediações entre os diversos atores do processo de intervenção ergonômica. Tal protocolo visa uma melhor compreensão do sistema homem - trabalho, de modo a contribuir na transformação ou na concepção das situações de trabalho e dos sistemas técnicos.
As intervenções ergonômicas devem ser compreendidas como um processo que contempla análise, projeto, implantação e difusão. Um dos métodos mais difundidos para realização de análises é a Análise Ergonômica do Trabalho (AET) de origem franco-fônica. Segundo Abrahão (2009), este método refere-se a um conjunto de etapas e ações que se diferencia pelo fato de ter suas hipóteses construídas, validadas e/ou refugadas ao longo do processo.
No entanto, com exceção da fase de análise que possui um método claro e bem definido, as demais não possuem a mesma estruturação. No entanto, vale ressaltar que a intervenção ergonômica refere-se à transformação do trabalho, a qual deve contemplar, além das análises, as fases de projeto, implantação e difusão.
Nesse sentido, este artigo tem por objetivo apresentar, a partir da experiência dos autores e de revisão bibliográfica, os vários momentos que podem ocorrer a etapa de validação durante a intervenção ergonômica.

2. CONCEITO DE VALIDAÇÃO
Para Dejours (2004), a validação é aquilo que convém considerar como as interpretações do ergonomista: essas interpretações dizem respeito a três pontos que constituem, respectivamente, as três etapas cronológicas da ação: o diagnóstico da situação a transformar, as conjecturas que ele faz sobre a ação que
ele propõe conduzir e a avaliação que ele faz dos resultados da intervenção.
Entende-se que a validação está presente em todo o processo de intervenção ergonômica, atuando como um meio de materialização das questões implícitas ao trabalho e de interpretação dos resultados da situação transformada.
Segundo Abrahão (2009) as validações podem ocorrer em diferentes momentos de sua ação, sendo que para a interpretação dos resultados, as verbalizações contribuem para elaboração e validação do diagnóstico final.
Para Dejours (2004) a validação é um processo intersubjetivo mediado pela palavra entre ergonomista e trabalhadores.
O primeiro momento da validação ocorre no âmbito das análises, suportadas pela AET, de forma que se possa criar um espaço para discussões entre trabalhadores e ergonomistas visando à compreensão da atividade de trabalho.
Em posse desses dados o ergonomista avança para a formulação de conceitos: fase de projetos de situações produtivas. Neste momento as negociações entre os atores envolvidos voltam-se para a identificação dos determinantes da atividade, uma vez que os modos operatórios, as variabilidades e as regulações do trabalhador podem não aparecer no momento da análise.
A Figura 01 procura representar a cronologia das intervenções ergonômicas e os diferentes momentos de validação nas suas diversas fases.
A validação é uma oportunidade para o ergonomista enriquecer sua compreensão das situações, feita através da confrontação entre os operadores observados e os ergonomistas. Ao final apresentam-se as constatações ou mesmo os diagnósticos criados por esses atores que posteriormente serão difundidos para a empresa (DANIELLOU e BÉGUIN, 2007).
Figura 1: Cronologia das etapas de validação em intervenções ergonômicas.
A figura ilustra a prática vivenciada pelos autores onde é possível verificar que a validação da análise pode ser entendida como um processo dinâmico, envolvendo as fases de análise e início de projeto, atuando assim de forma complementar e cíclica.
Com relação à etapa de projetos a validação pode ocorrer em dois momentos: na elaboração de conceitos e nas especificações técnicas (detalhamento). Novamente são os trabalhadores os principais envolvidos, porém existe a necessidade de validação junto ao corpo gerencial e técnicos de tais propostas.
Por fim, na fase de implantação consiste o artefato construído, isto é, a situação transformada. A validação ocorre no sentido de verificação. É por meio dessa que o ergonomista pode avaliar se o projeto atendeu as exigências da atividade e as necessidades do trabalhador e da empresa (saúde, bem-estar e produtividade).
Assim, a validação é uma etapa inerente ao processo de intervenção ergonômica. Isto significa que sua aplicação para momentos distintos podem exigir também técnicas diferenciadas de validação.

3. TÉCNICAS DE VALIDAÇÃO
A análise ergonômica está centrada no campo da subjetividade, visto que o ergonomista utiliza-se de técnicas de registro de observações com foco nas verbalizações dos trabalhadores e de sua experiência para a descrição da atividade (GUÉRIN et al., 2001).
O uso de técnicas de validação durante o processo de intervenção ganha importância, pois tem a função de verificar se as informações colhidas no real do trabalho são representativas e revelam o ponto de vista dos trabalhadores.
A seguir são apresentadas algumas técnicas de validação em diferentes momentos da intervenção ergonômica.
3.1 Validação na Análise Ergonômica do Trabalho
A validação da análise é utilizada como ferramenta de restituição das observações, pois após a análise dos dados resultantes da observação sistemática, é necessário um momento de retorno, de maneira organizada, das informações aos atores participantes da análise (ABRAHÃO, 2009).
Autoconfrontação
A autoconfrontação é constituída pela apresentação, por parte do pesquisador, das observações realizadas no ambiente de trabalho. Para isto, o pesquisador pode fazer uso de imagens filmadas, relatórios, tabelas ou descrições no sentido de fazer com que o trabalhador autoconfronte suas atitudes e comportamentos de modo a produzir elementos que valide as representações do pesquisador (VIDAL, 2003).
De acordo com Wisner (2004), o aparecimento da autoconfrontação abre portas para a interpretação e para a busca do sentido do trabalho em resposta àqueles que estão imersos no ambiente laboral e que, muitas vezes, não tem o poder da palavra e da verbalização.
Nessa etapa o ergonomista pode fazer uso de técnicas de autoconfrontação individual e/ou da autoconfrontação coletiva e de seminários de negociações.
Autoconfrontação Individual (Simples)
A autoconfrontação simples é o olhar de um único trabalhador sobre sua própria atividade. Ao trabalhador é apresentado imagens, fotos e textos com as descrições de sua atividade, na tentativa de compreender o real de seu trabalho.
Surge um espaço para que o trabalhador possa contemplar a análise, com discussões dos pontos positivos e negativos dos conceitos apresentados pelo ergonomista. É nesse momento também que podem aparecer, através das verbalizações, diferentes maneiras que o trabalhador opera diante do imprevisto (variabilidades e modos operatórios).
Autoconfrontação Coletiva ou em Grupo
A autoconfrontação coletiva ocorre com a participação de diferentes participantes envolvidos no processo de intervenção ergonômica. A importância de cada participante se deve às contribuições ímpares acerca das situações de trabalho. As reflexões ocorrem com visões de mundo e perspectivas diferentes que necessitam ser consideradas no contexto de trabalho.
Seminários de Negociações
Os seminários servem para que os resultados de cada desenvolvimento dentro das etapas de intervenção sejam levados à avaliação.
Assim como na autoconfrontação em grupo, os seminários representam um espaço coletivo para discussões, ou seja, é o local onde os atores ou as especialidades dispõem de espaços para as negociações acerca dos resultados da análise da situação de trabalho.
Segundo Menegon (2003) a diferença está no objetivo final, pois nos seminários os atores ou especialidades dispõem de espaços para produzirem deliberações. A aplicação de uma ou de outra técnica dependerá do objetivo do ergonomista e/ou do programa de ergonomia no momento da ação.
3.2 Validação em Projeto
A validação em projeto pode ocorrer de diversas formas e em momentos distintos, conforme o objetivo esperado da participação dos diferentes atores nesse processo.
As formas possíveis de validação estão relacionadas ao nível de participação e influência desejadas sobre o projeto. Desta forma, pode-se iniciar tal participação desde as primeiras construções do projeto (básico), permitindo uma maior influência, até a validação do
projeto final detalhado (especificações), onde a margem de modificação normalmente é bastante restrita.
Assim, existem diferentes técnicas possíveis de serem utilizadas no processo de validação. Destacam-se as plantas e maquetes (físicas e digitais) e as simulações digitais humanas, como técnicas bastante difundidas.
Plantas e Maquetes Digitais
A introdução de plantas e maquetes no processo de projeto tem o intuito de melhorar a representação das futuras instalações para os diferentes atores presentes. Também facilitam a comunicação entre as disciplinas participantes do projeto, possibilitando que ajustes sejam discutidos e realizados antes da implantação.
As ferramentas que merecem destaque na elaboração de plantas e maquetes são a tecnologia CAD (Computer Aided Design) que permitem a representação e avaliação dos conceitos em ambiente digital (TORRES, 2001).
Entre as características que possuem essas ferramentas a capacidade de criação e modificação de desenhos tridimensionais pode ser considerada como as principais.
Plantas e Maquetes Físicas
O uso de plantas e maquetes físicas (em escala ou em tamanho natural) tem auxiliado a participação de trabalhadores, usuários, responsáveis técnicos e gerenciais no desenvolvimento (e validação) de projetos conceituais.
Seim e Broberg (2010) defendem uma abordagem diferenciada para os ergonomistas no processo de projeto de espaços de trabalho. Tal abordagem contempla de forma definitiva a participação dos trabalhadores, gerência e projetistas externos através de uso de jogos de tabuleiro que reproduzem layout do espaço de trabalho e maquetes em escala reduzida do prédio, entre outras técnicas.
Simulação Humana Digital
A simulação humana digital pode ser dividida em três áreas principais que são: os ambientes (incluindo desenhos em CAD), os manequins (ou digital modelos humanos construído com dados antropométricos) e a análise (disponível a partir da simulação) (ZIOLEK, 2000).
Dessa maneira a simulação humana pode ser utilizada como ferramenta de representação do homem no ambiente projetado, ferramenta de avaliação de situações produtivas e diferentes análises como, por exemplo, esforços físicos requeridos, avaliações das exigências biomecânicas, validações de zonas e envelopes de alcance e acessibilidade.
Exemplos de softwares de modelagem e simulação humana são o Jack (UGS Siemens) e RAMSIS (Human-Solutions).
Após a validação das especificações finais, é possível a implantação das soluções propostas.
3.3 Validação pós-Implantação
A implantação é uma das últimas fases de uma intervenção ergonômica. As técnicas utilizadas para validar essa etapa não estão estruturadas para a ergonomia na mesma qualidade e quantidade que para outras áreas de conhecimento, como por exemplo, para a arquitetura e desenvolvimento de produtos. Acredita-se que uma forma de validar a implantação de uma nova situação de trabalho é o retorno à situação para uma nova análise ergonômica, a fim de constatar se os pontos levantados durante todo o processo de análise inicial foram contemplados ou não.
Tal validação é de extrema importância devido à ineficiência produtiva na implantação de projetos, que pode ser atribuída a diversos fatores como perda de saber durante as fases de desenvolvimento (FALZON, DARSES e SAUVAGNAT, 1998).
Sendo assim, a nova situação revelará novos reveses, pois a atividade continua em ação, tanto para os que operam o dispositivo técnico como para aqueles que se encarregam da sua concepção (ERGO&AÇÃO, 2003).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar do reconhecimento da existência da validação nas intervenções ergonômicas seu uso, na maioria dos casos, está atrelado à fase de análise. Comumente são ignorados os momentos de desenvolvimento dos projetos, suas especificações e o pós-implantação.
Como disciplina participante da transformação das situações de trabalho, a ergonomia (e
consequentemente, a validação) deve atuar por todo o processo, ou seja, análise, projeto e implantação.
Entendemos, portanto, a ergonomia como atuante nas diferentes fases de uma intervenção ergonômica com a questão da validação devendo ser tratada com um papel central. Sendo assim, é importante que sejam desenvolvidas discussões que permitam o amadurecimento de conceitos e ferramentas de validação possíveis de serem utilizadas em todo o processo de intervenção.

5. REFERÊNCIAS
ABRAHÃO, J. et al. Introdução à ergonomia: da prática à teoria. São Paulo: Editora Edgard Blucher, 2009. 240 p.
ACCIOLY, M, I. Táticas da cognição: a simulação e o efeito de real. Ciência & Cognição., v.09, n.1, p. 56-63, 2006. Disponível em: <http://www.cienciasecognicao.org/pdf/v09/m346119.pdf >. Acesso em: 23 nov. 2009.
BRAATZ, D. Análise da aplicação de ferramenta computacional de modelagem e simulação humana no projeto de situações produtivas. 2009. 162 p. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção). PPGEP/DEP Universidade Federal de São Carlos, São Carlos 2009.
DANIELLOU, F.; BÉGUIN, P. Metodologia da ação ergonômica: abordagens do trabalho real. In: FALZON, P. (ed.) Ergonomia. São Paulo: Editora Edgard Blucher, 2007. 640 p.
DEJOURS, C. Epistemologia concreta e ergonomia. In: DANIELLOU, F. (Org.). A ergonomia em busca de seus princípios: debates epistemológicos. São Paulo: Edgard Blücher, 2004, p. 199-216.
ERGO&AÇÃO. Fundamentos de ergonomia. São Carlos: UFSCar/DEP, 2003. Disponível em: <http://www.simucad.dep.ufscar.br>. Acesso em: 06/maio/2010.
FALZON, P.; DARSES, F.; SAUVAGNAT, C. Une perspective ergonomique sur la construction et l`évolution des savoirs experts. Actes du colloque, Recherche et Ergonomie, Toulouse, 1998.
FALZON, P. (Ed.). Ergonomia. São Paulo: Edgard Blücher, 2007
GUÉRIN, F. et al. Compreender o trabalho para transformá-lo. A prática da Ergonomia. 2. ed. São Paulo: Edgard Blücher - Fundação Vanzolini, 2001. 200 p.
LIMA, F.P.A. A Ergonomia como instrumento de segurança e melhoria das condições de trabalho. I Simpósio sobre Ergonomia e Segurança do Trabalho Florestal e Agrícola, Belo Horizonte - MG, 2000.
MENEGON, N. L. Projeto de processos de trabalho: o caso da atividade do carteiro. 2003. 259 p. Tese (Doutorado em Produto). COPPE/Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2003.
SEIM, R.; BROBERG, O. Participatory workspace design: a new approach for ergonomists? International Journal of Industrial Ergonomics. n. 40, p.25-33, 2010.
TORRES, I. Integração de ferramentas computacionais aplicadas ao projeto e desenvolvimento de arranjo físico de instalações industriais. 2001. 154 p. Dissertação (Mestre em Engenharia de Produção). PPGEP/DEP Universidade Federal de São Carlos, São Carlos 2001.
ZIOLEK, S. A.; KRUITHOF, P. C. J. Human modeling & simulation: a primer for practitioners. In: HFES, 44, 2000, San Diego, USA. Proceedings... San Diego: HFES, 2000.
CD-ROM.

Autor: Daniela da Silva Rodrigues et al