Vita Hábil - Soluções em Reabilitação

Artigo
A+ A-

08/08/2011

COMPLEMENTARIEDADE ENTRE A ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO E A ABORDAGEM...

COMPLEMENTARIEDADE ENTRE A ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO
E A ABORDAGEM DA ATIVIDADE FUTURA NA ERGONOMIA DE
CONCEPÇÃO: SEU USO NA INDÚSTRIA DE REFINO DE PETRÓLEO


Daniel Braatz (UFSCAR) braatz@dep.ufscar.br
Daniela da Silva Rodrigues (UFSCAR) danielarodrigues@dep.ufscar.br
Michel Silvério (UFSCAR) michel@dep.ufscar.br
Nilton Luiz Menegon (UFSCAR) menegon@dep.ufscar.br
João Alberto Camarotto (UFSCAR) camarotto@dep.ufscar.br
 
Resumo: A inserção da ergonomia nas indústrias de refino de petróleo brasileira divide-se
em dois focos de intervenção, que são: a ergonomia de correção e a ergonomia de
concepção. Quanto ao foco dos programas de ergonomia implantados nestas organizações
eles estão estruturados de modo a responder as demandas através do olhar da atividade  a
partir do método da Análise Ergonômica do Trabalho (AET). Para atuar no projeto de novas
instalações  a ergonomia pode fazer uso da Abordagem da Atividade Futura (AAF), a qual
lhe orienta buscar situações de referência e situações de ações características (SAC) que
podem ser utilizadas como base na elaboração de simulações objetivando a reconstituição da
atividade futura, criando espaços de interação entre os participantes do processo de projeto.
Dessa forma, discute-se como a  AAF  pode auxiliar o processo de projeto para novas
instalações e modernizações tecnológicas na indústria de refino de petróleo.
Palavras-chave: Ergonomia; Concepção, Indústria de Refino de Petróleo.
 
 
1. Introdução
A participação da ergonomia nos projetos industriais, quando existe, tem produzido
conhecimentos  e orientações para  as organizações, contribuindo para o desenvolvimento de
máquinas, estações de trabalho e instalações industriais. No entanto, sua aceitação, na maioria
dos casos, tem sido limitante e voltada a melhorias de máquinas e ferramentas e dificilmente
aplicada ao sistema de trabalho como um todo (SHIKDAR e SAWAQED, 2004).
A abordagem francesa da ergonomia  (ergonomia da atividade), orientação teórica desse
trabalho, tem seus pressupostos pautados,  como menciona Guérin  et al.  (2001),  na
"fundamentação dos estudos das situações e das características dos indivíduos em seu
ambiente de trabalho",  visão antagônica dos estudos apresentados diante de contextos
industriais. A atuação sobre máquinas e ferramentas limita as considerações sobre atividade
humana dentro do contexto de trabalho, ou seja, o olhar sobre as relações ambiente-indivíduo
nas quais estão presentes as margens de manobra do trabalhador diante da atividade, os
contrangimentos, as sobercargas,  que são  as questões implícitas  (ou imateriais)  do trabalho
que interferem na saúde do trabalhador.
É neste sentido que a ergonomia da atividade procura se desenvolver, pois desde seu
surgimento sua maior preocupação tem sido na eliminação ou limitação dos efeitos
indesejaveis a saúde dos trabalhadores e no desempenho das organizações. Para isto se baseia
na análise da atividade em situações de trabalho, ou seja, a atividade situada em seu contexto
 
Apesar do conhecimento das situações existentes ser a base da ergonomia da atividade, este
não pode ser considerado na ergonomia de concepção, que necessita de outros métodos de
intervenção devido a inexistência da atividade. Sendo assim, o ergonomista deve utilizar-se de
métodos que permitam a antecipação do efeito da implantação dos novos meios de trabalhos,
o que pode ser realizado por meio do uso de simulações (DANIELLOU e BÉGUIN, 2007).  
Para Daniellou (2002), os projetos envolvendo a concepção indústrial devem considerar todas
as situações possíveis em função das variabilidades de produtos, máquinas, ambinetes e
operadores. O que pode ser realizado por meio da reconstituição das atividades "futuras" a
serem desenvolvidas pelos trabalhadores.  
Em projetos na indústria de refino a  participação da ergonomia busca  permitir uma aproximação com a atividade executada pelo trabalhador, suas representações, variabilidades,
modo operatório e sobrecarga de trabalho vinculadas ao trabalho real, tendo como base a
análise da atividade do trabalhador.  
No entanto, se incorporada tardiamente em projetos, a ergonomia restringe sua interevenção e
limita-se apenas a correções pontuais.  Porém,  em ambientes complexos, como refinarias, o
momento de sua inclusão  é de grande importância, pois de acordo com Braatz (2009) no
início da concepção não existem definições de localizações de válvulas, drenos, tubulações,
enfim, dos dispositivos técnicos que interagem com o trabalhador, por isso a possibilidade de
espaços de manobras entre aqueles que irão iniciar o detalhamento do projeto é maior, o que
permite o fornecimento de conhecimentos sobre e homem no mundo de trabalho no sentido de
minimizar as inadequações tão comuns na área industrial.
Caso contrário, corre-se o risco de criar uma imagem negativa de sua atuação, como campo
do conhecimento que não coopera para o andamento de projetos, ou ainda, busca apenas
apontar problemas, colocando em risco prazos e recursos do projeto, além da manutenção de
intervenções tecnicistas esvaziadas de conhecimentos sobre o funcionamento no homem no
trabalho e suas implicações.
É nesse contexto que o presente artigo busca mostrar as contribuições da Análise Ergonômica
do Trabalho  (AET)  e  da Abordagem da Atividade Futura  (AAF) em intervenções
ergonômicas no processo de concepção de novas unidades produtivas na indústrias de refino
de petróleo. A importância de tal situação específica é a possibilidade de uma visão global
quanto a participação da ergonomia nas fases de concepção de tais sistemas produtivos.
2. Intervenções Ergonômicas
A aplicabilidade da Ergonomia dentro da indústria de petróleo, em especial em refinarias
engloba, dentre outras,  as intervenções  em: atividades de operação, novas instalações
(concepção), condições do posto de trabalho, fatores ambientais, biomecânicos e
organizacionais do trabalho.
As demandas ergonômicas podem ter sua origem em diversos aspectos e setores, tanto
externos quanto internos à empresa, por exemplo, podem ser oriundas de notificações do não
cumprimento de requisitos legais; de inspeções das Delegacias Regionais do Trabalho; da
área da saúde, de segurança e de meio ambiente; encaminhadas pelos próprios trabalhadores
ou pelos supervisores; demandas levantadas pelos sindicatos, pela Comissão Interna de
Prevenção de Acidentes (CIPA) ou pela equipe de ergonomia; da introdução de novas
tecnologias ou mudanças no processo de produção, projetos de novas instalações; de ocorrências acidentais; de taxas de absenteísmo, dentre outras, seguindo um fluxo de
intervenção para situações existentes e/ou situações a conceber.  
O método utilizado para responder a essas demandas é a Análise Ergonômica do Trabalho,
que busca o entendimento  da atividade de trabalho de forma detalhada de modo a fornecer
respostas quanto às solicitações referentes à demanda, tarefa e atividade, e fornecer hipóteses
a serem consideradas como foco de intervenção.
 
3.1 O Método da Análise Ergonômica do Trabalho (AET)
A Análise Ergonômica do Trabalho (AET)  é um método que tem como objeto o estudo da
atividade de trabalho, com a finalidade de transformá-la e melhorá-la (GUÉRIN et al, 2001).  
Tal análise busca o entendimento do trabalho real exercido pelos trabalhadores em resposta à
tarefa prescrita pela organização. Para Abrahão (1999) prioriza-se a análise da atividade,
entendendo o trabalhador como ator principal do processo de trabalho.
O ponto forte deste método é a análise minuciosa do comportamento dos homens em
situações de trabalho, permitindo identificar e eliminar as causas mediatas de doenças, de
acidentes e de sobrecarga de trabalho (LIMA, 2000).
Sendo assim, podemos afirmar que  o objetivo principal do ergonomista é compreender o
trabalho, de forma detalhada de modo a fornecer respostas quanto as solicitações referentes a:
i.  demanda  - é uma forma de agir sobre a situação de trabalho, buscando responder às
necessidades dos trabalhadores. O solicitante a essa intervenção pode ter diferentes
origens, como empresa, sindicatos ou próprios trabalhadores. ii.  tarefa  -  é  destacada como sendo o momento de levantamento dos condicionantes
envolvidos na interface da tarefa, sendo ela realizada a partir da consulta de
documentos formalizados pela organização e pela observação do trabalho. Tal análise
constitui uma perspectiva externa ao trabalhador, e isto a distingue da análise da
atividade (ERGO&AÇÃO, 2003);
iii.  atividade - é marcada pelas observações, filmagens e entrevistas com os trabalhadores,
procedimento este que servirá para evidenciar os determinantes da atividade, com
consequente confrontação dos dados coletados e analisados, os quais poderão  servir
como suporte na concepção de um projeto;
iv.  diagnósticos  - momento o qual são apresentadas as hipóteses a serem consideradas
como foco de intervenção;  
v.  recomendações  -  são as características desejáveis de melhoria para cada situação de
trabalho.
Vários problemas que podem ser detectados aparecem no interior do que se considera ser uma
situação normal de produção, isto é, sob a aparência de normalidade pode se encontrar uma
situação inadequada (LIMA, 2000).
É importante notar que o resultado dos diagnósticos pontuais das análises deverá compor um
diagnóstico global, com recomendações que compreendam as diversas relações existentes no
ambiente de trabalho e não sejam conflitantes entre si.
 3.2 A Abordagem da Atividade Futura
Na  década de 80, devido a movimentos de pesquisadores, sindicatos e trabalhadores na
França, surge a necessidade de uma nova abordagem para a ergonomia, nomeada como Abordagem da Atividade Futura (AAF). Tal abordagem não tinha como objetivo substituir ou
concorrer com a AET, mas sim, ampliar o poder de intervenção desta. A AAF é resultado da
demanda pela participação de ergonomistas em processos de projeto de novas situações
produtivas.
Daniellou (2002) propõe um desenvolvimento para essa abordagem como:  
i.  O  levantamento prévio das características do sistema que vão condicionar a
atividade;  
ii.  A previsão de manobras que os diferentes operadores poderão efetuar sobre o futuro
sistema e;
iii.  A antecipação da atividade que eles deverão realizar.
A AAF consiste em antecipar as dificuldades, as margens de manobra, o espaço de trabalho
do interior do qual a atividade poderá ser realizada após a implementação do sistema
(DANIELLOU, 2007).
Dentro desse contexto, revela-se a importância da atuação do ergonomista em campo para que
este compreenda as situações de referência e se articule com os demais envolvidos no
processo de projeto. Braatz (2009) relata a importância da existência de espaços de interação
entre aqueles que executam atividades em situações típicas com os grupos de projeto,
possibilitando a reconstrução da atividade e concepção de cenários evolutivos.
Para Conceição et al (2007), a  identificação de Situações de Ação Características (SAC) e a
construção de cenários para a atividade futura permitem levantar questões pertinentes a serem
discutidas para definição das prioridades, o que será determinante nas escolhas dos projetistas.
 
3.2.1 Simulação e análise da atividade futura provável
O uso da simulação revela-se como instrumento de significativa importância para reflexão
sobre o contexto do trabalho, na tentativa de prever situações de sobrecarga e de presença de
constrangimentos, além de comportamentos e estratégias possivelmente adotadas pelo
trabalhador.
Especificamente, podemos citar a aplicação da simulação humana na concepção e análise de
situações produtivas futuras. Tal simulação permite analisar aspectos dinâmicos da execução
da tarefa, a interação entre pessoas e o local onde se desenvolve suas atividades de trabalho
(TORRES, 2007).  
A Figura 1 ilustra um programa computacional de simulação humana em um ambiente de trabalho A simulação da atividade futura provável busca compreender os possíveis condicionantes com
o auxílio da AET e da AAF, além de estimular e facilitar a interação dos  participantes do
processso de concepção. A simulação da atividade futura provável busca compreender os possíveis condicionantes com
o auxílio da AET e da AAF, além de estimular e facilitar a interação dos  participantes do
processso de concepção.
Conforme cita Daniellou (2007a), o objetivo das simulações é aproximar a atividade futura
dos utilizadores e identificar os problemas susceptíveis de pôr-se, em termos de saúde ou de
eficácia. O autor ainda destaca que a simulação permite minimizar os riscos que o novo
ambiente pode acarretar à saúde dos operadores. Assim, a análise da atividade futura visa
antecipar os possíveis constrangimentos, representações, variabilidades, modos operatórios e
sobrecargas vinculadas ao trabalho.  em concepção.
4. Processo de Concepção na Indústria de Refino de Petróleo e a Participação da
Ergonomia
A participação da ergonomia em projetos de concepção na indústria de refino de petróleo vem
ocorrendo progressivamente como mostram os estudos realizados por  Santos (1992),  Lima
(1999), Duarte (2000), Fontes et al. (2006).  
Em projetos de concepção, o conhecimento da realidade do trabalho torna-se importante na
medida em que possibilita a  antecipação de problemas, de modo a proporcionar melhores
condições de trabalho e de produção (BRAATZ, 2009).
CRIAR LINK (ajuda)
Dessa forma, faz-se necessária a interação entre os participantes (engenheiros, projetistas,
trabalhadores, ergonomistas) do processo de implantação de novos projetos  para alinhar as
metas de desempenho destes sistemas  às  reais características de sua operação, a partir do
momento em que o projeto se inicia.
 
4.1 As contribuições da ergonomia durante o processo de concepção
As ações ergonômicas no processo de concepção estão vinculadas às proposições de projeto,
desde suas etapas iniciais, aplicadas na identificação das condições e dos processos de
trabalho. Tal ação em fases preliminares possibilita a identificação de possíveis
constrangimentos e inadequações de dispositivos técnicos na situação de trabalho sob projeto,
que são aspectos relevantes na concepção de novas instalações.
A implementação da ergonomia em projetos de concepção  busca a  realização de estudos
ergonômicos, através de procedimentos e ações voltadas a situações existentes nas unidades
produtivas.  Os  projetos de concepção em ergonomia se baseiam na análise da atividade,
visando à concepção de sistemas técnicos ou organizações futuras, tendo como base a análise
da atividade do operador (BÉGUIN, 2004).  
As situações típicas ou características (Daniellou, 2002), necessitam ser identificadas em fases
anteriores ao projeto básico, pois nessa etapa as contribuições das diferentes lógicas
envolvidas no processo estão sendo  delimitadas e incorporadas ao projeto. Além disso, a
medida que o projeto avança no tempo as modificações tornam-se mais dispendiosas.  
Para Maline (1994)  a participação da ergonomia nos projetos deve ocorrer o quanto antes,
uma vez que, quanto mais avançado está o desenvolvimento desses, menor é o espaço de
manobras para alterações.
Cabe ao ergonomista  assegurar que os critérios identificados em situações de referências
serão contemplados na execução do projeto, no sentido de antecipar as condições de risco e de
constrangimentos, as quais os trabalhadores estão submetidos, bem como auxiliar nas
representações dos cenários futuros.
A construção desses cenários da atividade futura são os meios  de  confrontação com os
usuários  e a possibilidade de  interação entre os diferentes atores (engenheiros,  projetistas e
trabalhadores) no desenvolvimento do projeto e podem ser feitos por simulações utilizando-se
de desenhos, maquetes físicas ou eletrônicas, protótipos, software de simulação humana e
outros.
Para o autor Pikaar (2007) é importante que os ergonomistas ofereçam uma proposta viável
para o projeto como um todo e que possam estabelecer um parceria adequada com as demais
disciplinas envolvidas. O autor estabelece que, de forma geral, o relacionamento e
participação da ergonomia dentro de um processo de projeto de engenharia podem ser
ilustrados na figura a seguir.
Por fim, Jackson (2000) menciona que a intervenção do ergonomista no projeto necessita de
uma construção social que assegure a participação dos operadores nas simulações da atividade
futura.
5. Complementariedade entre AAF e AET
A aplicabilidade da ergonomia dentro da indústria de petróleo engloba avaliações em
atividades de operação, novas instalações, condições do posto de trabalho, fatores ambientais,
biomecânicos e organizacionais do trabalho.
A demanda ergonômica pode surgir de diversas origens, como solicitações da área da saúde,
acidentes, aspectos legais e através dos próprios trabalhadores e possuem tratamento de
acordo com a sua classificação (correção ou concepção), seguindo um fluxo de intervenção
para situações existentes ou situações a conceber.
De acordo com Daniellou (2007), a ergonomia  de correção é uma intervenção ergonômica
numa situação existente que visa a transformação limitada da mesma situação, ou no da
concepção de novos meios do trabalho. Já a ergonomia de concepção pressupõe que o
ergonomista possa se referir a situações existentes, as quais apresentem certas características
visadas pelo projeto.
Para estudos das situações de trabalho existentes os programas de ergonomia apresentam-se
estururados e sistematizados para responder essas demandas.  As intervenções sobre a
atividade  de trabalho são pautadas  na metodologia da AET,  descritas a partir de uma
demanda, com análise da tarefa, atividade, diagnóstico, recomendações e validação.
O mesmo não acontece para intervenções  aplicadas durante o projeto de um  produto,
máquina, ambiente  ou sistema a serem construídos, pois os programas atuais ainda não
conseguiram estabelecer de forma convincente a forma de atuação da AAF, a qual tem seu
foco na análise da situação de referência, antecipação de futuros constrangimentos e o uso da
simulação como ambiente propício para interação entre os diversos atores e disciplinas
envolvidas nesse processo.  
Para Jackson (2000)  abordagem da AET tem uma atuação mais situada, dando um olhar
clínico para a atividade de trabalho. Já a AAF apresenta uma atuação mais ampla, voltada
para o escopo organizacional. Assim, de acordo com Daniellou (2000) a reflexão deve apoiar-
se no conjunto das instalação ou dispositivo e não em suas partes isoladas. As intervenções
são aplicadas ao processo, com desenvolvimento participativo entre os atores e com
identificação de situação de referência.
A busca pela situação de referência pode ser feita de diversas formas, como menciona
Daniellou (2007b), as análises podem ocorrer através de simples visitas, entrevistas e
documentos, e por fim, em algumas será possível realizar verdadeiras análises. Para esta
última situação, recorre-se a AET no sentido de buscar subsídios para identificar na análise de
situação de referências os critérios que podem contribuir na busca por  antecipar  os futuros
possíveis constrangimentos.
Conforme cita Daniellou (2002), a Abordagem da Atividade Futura objetiva  identificar
eventuais variabilidades na tarefa do operador, bem como as estratégias empregadas por ele
para enfrentá-las. Tais variabilidades são estabelecidas a partir da integração que o operador
realiza das diferentes exigências técnicas e organizacionais presentes, bem como do estado do
sujeito, decorrente tanto da habilidade e da experiência, quanto das condições momentâneas
do operador. Dai resultam formas de utilização distintas daquelas idealizadas na concepção.
Nesse sentido a AET complementa a AAF,  compreendendo a diferença entre o trabalho
prescrito e o real  nas  situações típicas  de trabalho,  identificando diversos aspectos  e
constrangimentos a serem considerados no desenvolvimento de projetos de concepção.
6. Considerações Finais
O objetivo do presente artigo é apresentar os desafios da AET e da AAF em intervenções
ergonômicas em indústrias de petróleo durante o processo de concepção de novas unidades e
modernizações tecnológicas. As especificidades da indústria de processo contínuo foram
exploradas assim como as diferentes abordagens que atualmente já se encontram estabelecidas
em programas e projetos de ergonomia desenvolvidos em diferentes unidades produtivas.
No entanto, concluímos que, apesar de a AAF já estar presente em padrões corporativos e
publicações científicas ligadas ao setor, essa não possui a mesma solidez e difusão que a AET.
Em contrapartida, nossas experiências em campo  demonstram o aumento exponencial da
necessidade de atuação da ergonomia desde as etapas iniciais de projetos de engenharia.
Dessa forma, salientamos a necessidade da atuação dedicada dos profissionais de ergonomia
durante todo o processo de projeto, atuando em conjunto com os projetistas, operadores e
demais atores envolvidos. Outro aspecto que reforça a necessidade de tal participação é o
caráter dinâmico de tais projetos, que frequentemente encontram interferências de diversas
naturezas (mudanças de tecnologia, falta de material, questões legais e/ou normativas, entre
outras) ocasionando um processo de tomada de decisões que podem impactar na futura
atividade dos trabalhadores do local sob projeto.
Finalmente, acreditamos que, apesar das contribuições da ergonomia em processos de projetos
de novas instalações e da complementaridade apresentada entre a AAF e a AET, é importante
que se desenvolvam estudos com o objetivo de apresentar reais contribuições e limitações de
tais abordagens nesse contexto específico.
 Referências
ABRAHÃO, I.J; PINHO, D.L.M. Teoria e prática ergonômica: seus limites e possibilidades. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 1999.
BEGUIN P., CERF M. Formes et enjeux de l'analyses de l'activité pour la conception des systèmes de travail,
Revista eletrônica @ctivités, Vol 1, N° 1, 2004.  Disponível em < http://www.activites.org.>. Acesso em:
16/08/2009.
BRAATZ, D.  Análise da aplicação de ferramenta computacional de modelagem e simulação humana no
projeto de situações produtivas.  Dissertação, 163f  (Mestrado  em  Engenharia de Produção)  -  Universidade
Federal de São Carlos, UFSCar, São Carlos, 2009.
CONCEIÇÃO, C. S.; DUARTE, F. A reflexão sobre a prática da ergonomia em projetos de concepção de
espaços de trabalho: o caso de um centro de controle. Workshop Brasileiro de Gestão do Processo de Projetos
na Construção de Edifícios  - WBGPPCE, 2007, Curitiba. Anais do VII Workshop Brasileiro de Gestão do
Processo de Projetos na Construção de Edifícios, 2007.
DANIELLOU, F. Métodos em ergonomia de concepção: A análise de situações de referência e a simulação do
trabalho. In: DUARTE, F. Ergonomia e projeto na indústria de processo contínuo. Rio de Janeiro: COPPE/RJ:
Lucerna, 2002.
_____________.  Des fonctions de la simulation des situations de travial en ergonomie.  Activités Revue
Électronique, v. 4, n. 2, 2007a.
_____________. A ergonomia na condução de projetos de concepção de sistemas de trabalho. In: FALZON, P.
(Ed.). Ergonomia. São Paulo: Blucher, 2007b.  
_____________. A análise da atividade futura e a concepção de instalações externas.  In: DUARTE, F. (Org.).
Ergonomia e Projeto na Indústria de Processo Contínuo. Rio de Janeiro: COPPE/RJ: Editora Lucerna, 2000.
DANIELLOU, F.; BÉGUIN, P.  Metodologia da ação ergonômica: abordagem do trabalho real. In: FALZON,
P. (Ed.). Ergonomia. São Paulo: Blucher, 2007.  
DUARTE, F. J.  La constrution de l'actione ergonomique dans lê projet de modernisation d'une reffinerie de
pétrole. XXXV Congresse da SELF - Sociedade de Ergonomia de Língua Francesa, Toulouse, França, v. 01,
2000.
ERGO&AÇÃO.  Fundamentos de ergonomia.  São Carlos: UFSCar/DEP, 2003. Disponível em:
<http://www.simucad.dep.ufscar.br>. Acesso em: 15/ago/2009.
GÓMEZ, L. A.; COELHO, C. C. S. R.; DUCLÓS, E. O.; XAVIER, S. M. T.  Contratos EPC Turnkey.
Florianópolis: Visual Books, 2006.
GUÉRIN, F.; LAVILLE, A.; DANIELLOU, F.; DURAFFOURG.  J.; KERGUELEN, A. Compreender o
trabalho para transformá-lo. A prática da Ergonomia. São Paulo: Edgard Blücher, 2001.
FONTES, A.R.M.; MENEGON, F.A.; RODRIGUES, D.S.; MENEGON, N.L.  Process of ergonomic
intervention in an oil refinery: typification of solutions in the context of ergonomics.  In: SZNELWAR, L. I.;
MASCIA, F. L.; MONTEDO, U. B. (Eds.) Human factors in organizational design and management - IX. São
Paulo: Blücher, p. 217-223, 2008.
JACKSON,  J.M.  A participação  dos ergonomistas nos projetos organizacionais.  Revista de Produção, n.
especial, p. 61-70, 2000.
LAVILLE, A.  Referência para uma história da ergonomia francófona.  In: FALZON,  P. (Ed.).  Ergonomia.  
Editora Blucher, São Paulo, 2007.
LIMA, D. L. M; DUARTE, F.; FEITOSA, V. C. R.  A construção da ação ergonômica no projeto de
modernização de uma refinaria de petróleo: análise das interações entre operadores, engenheiros e
ergonomistas. IX Congresso Brasileiro de Ergonomia, ABERGO, Salvador - BA, Brasil, 1999.
LIMA, F.P.A. A Ergonomia como instrumento de segurança e melhoria das condições de trabalho. I Simpósio
sobre Ergonomia e Segurança do Trabalho Florestal e Agrícola, Belo Horizonte - MG, 2000.
MALINE, J. Simuler le travail. Une aide à la conduite de projet. Lyon-Montrouge: ANACT, 1994.
PIKAAR R.N. New Challenges: Ergonomics in Engineering Projects. Meeting Diversity in Ergonomics. p. 29-64. 2007
SANTOS, V.; ZAMBERLAN, M. C. P. L. Projeto ergonômico de salas de controle. Fundación Mapfre, São
Paulo, Sucursal Brasil, 143p, 1992.
SHIKDARA A. A., SAWAQED N. M. Ergonomics, and occupational health and safety in the oil industry: a
managers' response. Computers & Industrial Engineering 47 p. 223-232. 2004.
TORRES, I.  Um formalismo relacional para o desenvolvimento de arranjo físico industrial.  Tese 234f
(Doutorado em Engenharia de Produção), Universidade Federal de São Carlos, UFSCar, São Carlos, 2007.
 

Autor: Daniel Braatz et al