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Entrevista

JÚNIA CORDEIRO ENTREVISTA A LENDA DA TERAPIA OCUPACIONAL: TROMBLY !

4/24/2011

A Vita Hábil tem o grande prazer e orgulho de apresentar com exclusividade a entrevista com a lenda da Terapia Ocupacional: Catherine Trombly ! E nossa convidada de honra para fazer a entrevista foi Júnia Cordeiro, referência em Reabilitação no Brasil.

Conheça um pouco dessas talentosas profissionais, símbolos da luta pela Terapia Ocupacional !

TROMBLY, A LENDA DA T.O. !

Entrevistada:CATHERINE ANNE TROMBLY

Terapeuta Ocupacional, graduada pela Universidade de New Hampshire, Mestre pela Universidade do Sul da Califórnia e Doutora pela Universidade de Boston, onde foi professora por trinta anos na área de disfunções físicas. Publicou diversos artigos na área e é autora do livro "Terapia Ocupacional para a Disfunção Física" da qual está participando como co-autora em sua sétima edição.

Entrevistadora: JÚNIA J. RJEILLE CORDEIRO

Terapeuta Ocupacional graduada  pela Universidade Federal de Minas Gerais, Mestre em Ciências pela UNIFESP e MBA em Gestão de Saúde pelo Insper. Atualmente é Diretora Superintendente do Lar Escola São Francisco - Centro de Reabilitação  Foi a fundadora do serviço de Terapia Ocupacional na Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, tendo atuado na assistência e na gestão da Terapia Ocupacional, no Centro de Reabilitação e na consultoria de políticas e práticas assistenciais multiprofissionais. Responsável pela validação e divulgação do instrumento Role Checklist (Lista de Identificação de Papéis Ocupacionais, do Modelo da Ocupação Humana) no Brasil.

 

 Júnia- Conte-nos o que a motivou escolher a Terapia Ocupacional como profissão e como foi este processo!

 Trombly- Eu me decidi ser terapeuta ocupacional quando eu tinha aproximadamente 13 anos de idade. Não foi um processo muito planejado, consciente. Eu sabia que queria seguir a área de saúde - quem saberá a razão? - mas também sabia que não queria ser enfermeira. Eu admirava a amiga de minha irmã, a qual trouxe da universidade um maravilhoso objeto de artesanato que ela havia feito e ela mencionou que estava estudando para trabalhar em hospitais nos quais utilizaria este meio como forma de tratamento. Eu gostava de artesanato, então decidi que esta era a carreira que eu queria seguir e não me afastei desta idéia, embora eu não soubesse bem o que ela significava. Olhando para trás, eu acho que Deus estava dirigindo os caminhos da minha vida.

 

Júnia- Qual foi o maior desafio profissional que teve que enfrentar como terapeuta ocupacional?

 Trombly- O maior desafio que eu enfrentei foi como estudante num grande hospital no estado de Nova Iorque. Lá eu conheci jovens tetraplégicos que haviam sofrido acidentes que os paralisaram instantaneamente. Eu nunca havia conhecido casos tão graves e repentinos anteriormente e tive de lutar com as limitações da medicina e da terapia ocupacional para restaurar estas pessoas para a normalidade e restaurar meus próprios sentimentos em relação à imprevisibilidade da vida que permite que tais acidentes aconteçam.

 

Júnia- Você é considerada a maior autora sobre disfunção física e terapia ocupacional e até hoje o livro (originalmente escrito em 1977) é referência em todo mundo. Como este livro repercutiu em sua carreira? Fale-nos um pouco sobre essa trajetória!

 Trombly- O manual "Terapia Ocupacional para Disfunção Física", publicado pela primeira vez em 1977 por Anne Deane Scott e por mim, nasceu da necessidade. No início dos anos 70, não haviam livros que cobriam o material que nós ensinávamos em nossas aulas. Nós vivíamos reproduzindo artigos ou apostilas que nós julgávamos importantes para os estudantes. E, naquela época, a reprodução era feita com mimeógrafo e não com fotocópia, o que requeria que a secretária datilografasse o original que iria para o rolo da máquina. Nós compilávamos todo o material e o utilizávamos ano após ano. O material já se constituia numa pasta de aproximadamente 8 centímetros de espessura e os alunos se queixavam disto. Então, Anne Deane sugeriu que nós procurássemos um editor que transformasse tudo num livro. Muitos se recusaram, mas Williams & Wilkins aceitaram a tarefa. De lá para cá, tem sido somente uma questão de atualizar e melhorar o material para as edições que se sucederam, a partir das iniciativas do editor para cada nova edição. O livro teve o efeito de "padronizar" ou influenciar a prática da terapia ocupacional com pessoas com disfunções físicas. Este fato, na minha ingenuidade dos primeiros anos, simplesmente me maravilhou. Nós escrevemos um livro focando em nossas próprias necessidades e não podíamos imaginar o alcance que teria. Então, eu adquiri a posição que tenho na profissão pelo meu próprio trabalho e aproveitando as oportunidades que me foram apresentadas.

 

 

Júnia- Felizmente tivemos um grande avanço na inclusão das pessoas com deficiência nos diferentes âmbitos da vida. Como você avalia a responsabilidade do terapeuta ocupacional neste processo ?

 Trombly- A terapia ocupacional, mais que qualquer outra profissão, tem a responsabilidade de habilitar pessoas com deficiências para a participação plena na vida, porque sabemos que estas pessoas são capazes e porque nós temos a capacitação para levantar tudo o que facilita ou dificulta esta participação. Todos os terapeutas ocupacionais trabalham com indivíduos para reforçar o seu desempenho ou direcionar ou orientar adaptações que permitam a sua participação. Todos os terapeutas ocupacionais também orientam os familiares para garantir a participação da pessoa com deficiência conforme suas capacidades. Alguns terapeutas ocupacionais, que possuem um dom especial, se engajam em serviços comunitários em escolas de educação especial, recomendando adaptações que permitem a participação em certas edificações ou nas situações. Outros terapeutas tem personalidade e habilidades para se engajarem em atividades politicas a fim de que as leis se efetivem no que tange à inclusão em todas as atividades da vida.

 

 

Júnia- Quem é a pessoa Trombly ? Conte-nos um pouco sobre você!

 Trombly- Agora sou Catherine Trombly Latham. Eu me casei com John, um viúvo, em 2006. Eu nasci em Manchester, estado de New Hampshire, nos Estados Unidos da América. Eu sou a mais velha de seis irmãos. Meu pai (e todos os seus quatro irmãos eram encanadores (trabalhando com encanamentos e aquecedores). Minha mãe era uma dona de casa que acreditava fortemente que mulheres deveriam estudar. Minha irmã e eu fizemos o ensino médio num internato católico por quatro anos e então eu entrei na Universidade de New Hampshire e minha irmã foi para a escola de enfermagem. Após me tornar terapeuta ocupacional, atendi a um anúncio no "American Journal of Occupational Therapy" sobre uma vaga num hospital de reabilitação na cidade de Cleveland, Ohio. Eu recebi uma tremenda tutoria lá, tive uma licença para fazer meu mestrado na Universidade do Sul da Califórnia, com a Dra. Jean Ayres, e voltei como terapeuta ocupacional pesquisadora. Com o envelhecimento dos meus pais, decidi mudar-me para mais perto de casa e, ao mesmo tempo, a Universidade de Boston estava procurando professor na área de disfunções físicas; então aceitei o posto e fiquei lá por trinta anos, fazendo também meu doutorado. Minhas atividades pessoais incluem o cultivo de rosas, voluntariado, tricô ou crochê, leitura e visita aos amigos. Todas as 6as. feiras à noite, nos últimos 36 anos, eu janto com amigos. Eu adoro gatos.

 

Júnia- Você já esteve no Brasil?Você conhece alguma prática terapêutica ocupacional realizada em nosso país?

 Trombly- Não, lamento dizer que nunca estive no Brasil e não conheço nada sobre a prática da terapia ocupacional no Brasil. Eu sei que o manual "Terapia Ocupacional para Disfunção Física", foi traduzido para o português utilizado no Brasil e então eu pressuponho que a prática não seja muito diferente da existente nos EUA, exceto pelas diferenças na lei que impactam o sistema de saúde e as atitudes sociais em relação à deficiência.

 

Júnia- Hoje a medicina, bem como a robótica e a tecnologia assistiva, estão cada vez mais presentes para assistirem as pessoas com disfunção física. O que hoje mais te impressiona e acredita (e se acredita) ser o caminho para a solução das dificuldades motoras?

 Trombly- Os avanços da medicina tem conseguido cada vez mais preservar a vida e as funções das pessoas após um traumatismo crânioencefálico ou após um acidente vascular encefálico, o que não ocorria há 50 anos atrás e isto tem um grande impacto na terapia ocupacional. Os avanços na eletrônica e na computação permitem maior inclusão da pessoa com deficiência como, por exemplo, programas que convertem a fala em comandos para o computador ou que permitem pessoas atuarem por meio da sua fala ao invés do uso da habilidade motora ou da digitação. A internet e as várias redes sociais ampliam os horizontes de pessoas altamente incapacitadas. A terapia é muito mais divertida quando jogos eletrônicos, tais como o Wii, são usados como ocupação. Cadeiras de rodas, carros, próteses são mais avançados e adequados para permitir uma utilização mais natural. Mas não, eu não acho que a robótica ou outros avanços tecnológicos são a principal solução para as pessoas com deficiência agora. Eu integrava uma equipe de pesquisa na década de 60 que pioneiramente utilizou a robótica e as órteses eletrônicas para deficientes graves (tetraplégicos nível C1 a C4). Elas não avançaram muito nestes 50 anos. Não há evidência de que a terapia robótica ou o uso de órteses eletrônicas tenham um efeito terapêutico duradouro. O esforço tecnológico pode nos impulsionar para frente, mas os terapeutas ocupacionais devem manter seu foco em habilitar a participação de todas as formas que eles puderem e não esperarem na tecnologia como sendo uma "bala de prata" - a salvação imediata.

 

Júnia- Qual grande passo demos em nossa profissão e qual ainda precisamos dar!?

 Trombly- Não sei se entendi bem esta pergunta. Se você está me perguntando qual foi o passo chave no desenvolvimento da terapia ocupacional para onde estamos hoje, eu diria que a profissão evoluiu do foco no uso do artesanato e nas funções corporais, para o foco no cliente e no desempenho ocupacional. O passo mais importante que precisamos para o futuro, em minha opinião, é o de fundamentar a nossa prática na evidência da efetividade e garantir que nossos sucessores a publiquem. A Classificação Internacional de Funcionalidade e Saúde (CIF) é aceita pela maior parte da comunidade médica e de reabilitação, e nos dá uma tremenda validação, mas somente se nos apropriarmos disto. Entretanto, sem as  pesquisas e as publicações da terapia ocupacional, outras profissões (por exemplo, fisioterapia, psicologia, fisiatria) estão entrando no domínio da terapia ocupacional.

 

Júnia- Você ainda atua? Tem planos dentro da Terapia Ocupacional?

Trombly- Não, eu não estou praticando e nem ensinando. Eu me aposentei da Universidade de Boston em setembro de 2001. Eu sou revisora de 5 ou 6 periódicos de reabilitação e eu dou parecer a solicitações de bolsas para várias agências governamentais. E, eu estou trabalhando na 7ª. edição do "Terapia Ocupacional para Disfução Física"como co-autora.

 

* Esta entrevista foi realizada à convite da Vita Hábil- Soluções em Reabilitação e sua publicação tem autorização de todas as partes envolvidas.

Todo o conteúdo da entrevista é protegido pelas leis de direitos autorais e direitos conexos. É expressamente proibido sua cópia, reprodução, difusão, transmissão, utilização, modificação, venda, publicação, distribuição ou qualquer outro uso, na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, fora dos casos expressamente previstos abaixo ou sem prévia autorização por escrito.
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Fonte: www.vitahabil.com.br
Autor: Junia Cordeiro entrevista Catherine Trombly !
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